“Marina Colasanti é a mulher da minha vida!”

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Capa Entre a espada e a rosa

"...E, arrastando a cauda de veludo, desceu as escadarias que a levariam até o Rei, enquanto um perfume de rosas se espalhava no castelo."

“Imagens como essas, carregadas de leveza, plasticidade e rara delicadeza compõem os contos de fadas de Marina Colasanti. Uma contadora de histórias que, nos dias de hoje, atualiza por meio da escritura essa prática milenar da narração. Dona de um texto forte, cifrado de símbolos cuidadosamente traduzidos em poesia, Colasanti insere seu leitor no universo maravilhoso de histórias memoráveis. Reis, princesas, castelos, cavaleiros – todos habitantes do imaginário universal – ganham nestes contos de Marina Colasanti uma dimensão extraordinária: o mínimo de palavras para o máximo de imagens, que se movem no interior de textos emocionantes e que permitem ao leitor viagens por tempos e espaços internos da palavra e de si mesmo. São histórias que contam “o que está dentro”; revelações aparentemente simples de sentimentos profundos e complexos que habitam a alma humana.”

Juliana Loyola

Professora do Curso de Letras e do Programa de Estudos Pós-Graduados em Literatura e Crítica Literária da PUC-SP.

Minha homenagem à Marina Colasanti, que no próximo dia 26 comemora 76 primaveras, começa com este lindo texto de Juliana Loyola. Texto que foi pensado para ser orelha da reedição de “Entre a Espada e a Rosa” em 2010 pela Editora Melhoramentos.

“Entre a Espada e a Rosa” e “Minha Tia me Contou” – os 2 livros de Marina no catálogo da Melhoramentos – passariam por uma repaginada em 2010 e fui incumbido para a tarefa, para terminar o trabalho da Leila, uma das minhas chefes na época e que precisou se ausentar por problemas pessoais.

Foi um dos trabalhos editoriais mais lindos que já fiz, pois me lembro da grande paixão que me movia, dos contos libertadores que lia: tudo perfeito.

Com a ausência da Leila Bortolazzi, trabalhei sob a supervisão das editoras Rosana Trevisan e Ana Célia Goda Cunha.

Aproveito o espaço para dizer que foi um imenso privilégio trabalhar com a Leila Bortolazzi, Rosana Trevisan e Ana Célia Goda Cunha nos meus 6 anos de Melhoramentos (junho de 2006 a maio de 2012).

Juliana Loyola, minha professora da PUC-SP na época e parecerista na Melhoramentos, aceitou o meu pedido! Iria fazer o texto de orelha para os dois livros de Marina!

Para continuar, preciso escrever um pouco sobre as mulheres da minha vida. Afinal, a Princesa do conto “Entre a Espada e a Rosa” é o primeiro personagem feminino protagonista deste ninho e Marina a primeira escritora!

As mulheres da minha vida:

1.Minha mãe, o que seria de mim sem a minha mãe?! Deu-me a vida, me fez enxergar o valor dos estudos, me ama e está comigo sempre. Em fevereiro a Dona Albertina comemorará 70 aninhos! Comemoraremos juntos!

2.Minha irmã Julieta. Quando eu, com 6 anos, estava me formando no Pré-Primário (em 1984...), a Ju estava terminando o Ensino Médio, com 17 anos. Temos 11 anos de diferença e, por conta da morte precoce de meu pai, ela e minha mãe foram as chefes da casa. Julieta foi uma das minhas grandes referências de ser humano até os meus 15 anos... Devo muito a essas duas por ser feminista.

3.Cíntia, minha amiga do peito. Somos amigos há 10 anos e dificilmente há um dia sem que um não ligue pro outro. Admiro muito essa moça por tantos motivos... tão humana, tão gente... em novembro estarei presente na sua defesa de dissertação de mestrado.

4.Bethinha, nos conhecemos em 1999 e admiro muito a sua garra perante as grandes adversidades da vida. Sempre que posso, vou até ela.

5.Juliana, minha terapeuta e taróloga. Esta sabe tudo sobre mim. Todas as segundas estamos juntos.

No entanto, peço perdão à Dona Albertina, à Julieta, à Cíntia, à Bethinha e à Juliana! A mulher da minha vida é a Marina Colasanti!

Marina Colasanti e eu 13.03.2013

Não há nenhuma possibilidade de sair ileso do conto “Entre a Espada e a Rosa”, do livro homônimo.

Todas as vezes que abro esse livro sinto um perfume de rosas se espalhando...

O livro possui 10 contos, mas o conto que leva o nome do livro... ah... esse me dá coragem para viver o amanhã!

Nele a Princesa recusa o casamento por interesse e, aos soluços, implora ao seu corpo, à sua mente, uma solução para escapar da decisão do pai algoz. Na manhã seguinte quando acorda... a resposta! Em seu rosto, uma barba havia crescido!

Livra-se do casamento arranjado, mas não da fúria do Rei. Este ordena a sua saída imediata do palácio!

“Atrás ficava tudo o que havia sido seu, adiante estava aquilo que não conhecia.”

Quem nunca passou por isso? Mesmo a Princesa recebendo a ajuda do maravilhoso, veio o desconhecido! Porém, a moça foi.

Muitas vezes a gente não quer ou não consegue ir. Por isso a grande importância desse conto colasantiano! Marina nos diz que os jovens (lembremos que o livro é juvenil) possuem dentro de si a coragem necessária para ir, para enfrentar os medos, o desconhecido e lutar pela real felicidade!

Essa história é libertadora!

“Agora, debaixo da couraça, ninguém veria seu corpo, debaixo do elmo, ninguém veria sua barba. Montada a cavalo, espada em punho, não mais seria homem nem mulher. Seria guerreiro.”

Sempre quando releio esse conto me vem à mente a grande aula de Juliana Loyola sobre essa história. Claro que a Princesa recebeu a ajuda do maravilhoso, mas essa moça não se esquivou, não voltou atrás, não se intimidou... sempre ia, enfrentava tudo, todos, o seu destino.

Como não se lembrar de Marina Colasanti na sua luta em prol da mulher, em prol da leitura para todos, como não se lembrar das mulheres da minha vida!

“Assim, de castelo em castelo, havia chegado àquele, governado por um jovem Rei. E fazia algum tempo que ali estava.

Desde o dia em que a vira, parada diante do grande portão, cabeça erguida, oferecendo sua espada, ele havia demonstrado preferi-la aos outros guerreiros. Era a seu lado que a queria nas batalhas, era a ela que chamava para os exercícios na sala de armas, era ela sua companhia preferida, seu melhor conselheiro.

Com o tempo, mais de uma vez, um havia salvado a vida do outro. E parecia natural, como o fluir dos dias, que suas vidas transcorressem juntas.”

Como a Princesa e o Rei ficarão juntos se nem o elmo ela pode tirar em sua presença?

Só posso dizer-lhe que o final é lindo!

Preciso dizer-lhe que você precisa ler ENTRE A ESPADA E A ROSA, pois Marina Colasanti é puro encantamento!

ENTRE A ESPADA E A ROSA (Melhoramentos), texto e ilustrações da autora, foi agraciado com dois valiosos prêmios. Ei-los:

Prêmio Orígenes Lessa – Melhor para o Jovem – FNLIJ;

Prêmio Jabuti – Categoria Melhor Livro Juvenil – CBL.

Marina, receba este texto-homenagem como presente de aniversário!

Feliz 76 primaveras!

Desejo-lhe muita literatura, encantamento infinito e muito amor no seu novo ano!

http://www.youtube.com/watch?v=2RwCgla_7Rs

MARINA COLASANTI por MARINA COLASANTI

“Jamais hei de saber a imagem que os outros têm de mim. Eu me conheço dos espelhos, das fotografias dos reflexos, quando meus olhos param para se olhar e a diferença de ângulos impede criar uma dimensão real. Não sei os movimentos do meu rosto. Nunca me vi pela primeira vez. Tenho, de mim mesma, uma ideia preconcebida que alia o espírito aos traços fisionômicos e ao desejo de uma outra beleza. Criei, assim, uma pessoa invisível, mais real, para mim, do que qualquer outra. Dessa pessoal eu gosto. E, talvez por saber-me sua única amiga, ela me enternece profundidade.

Vejo um rosto oval, de maçãs altas, a linha fácil e cheia descendo até meu queixo redondo, com uma doçura infantil. Os olhos grandes, plantados com sabedoria, são verdes, compridos, muito separados; toda vez que alguém busca em mim algo a elogiar, apega-se aos olhos, e ficou-me convencido que tenho olhos bonitos. Entre eles, ocupando mais espaço do que o estritamente necessário, meu nariz é elemento básico para manter viva a ilusão de que no dia em que resolver ficar bonita, será suficiente operá-lo. A boca, desenhada em redondos, tem o lábio superior pequeno e o de baixo cheio; divide-se, nítida, em luz e sombra, e somente os cantos virados para baixo a diferenciam de minha boca de menina.

Ao redor da cabeça pequena sinto o cabelo despenteado. Curto, desce em vírgulas sobre a testa, diante das orelhas e na nuca, deixando livre o pescoço. Sempre tive a impressão de um pescoço gracioso e longo, impressão provavelmente devida à magreza com que surge dos ombros, preso por tendões fortes, como se fosse um esforço erguer-se entre os omoplatas.

Vejo um corpo de garoto, os ossos largos e parente confirmando a boa estrutura. Nos meus braços, o sol desenha veias e músculos. As costas são mais estreitas do que deveriam. Os seios, promessa nunca concretizada. A cintura, pequena. Nos quadris e nas pernas, uma capacidade de força não solicitada. As mãos prendem-se ao punho sem hesitação, a palma é larga, os dedos fortes. Os pés são de pedra.

Quando me olho nas vitrines, de soslaio, tenho a passo seguro. Ando rápida, um pouco por pressa, um pouco pelo prazer físico de sentir o corpo em ação, obediente e jovem. Gosto de andar, e o faço com cuidado, sentindo o balanço e o apoio, prestando atenção. Tenho muito amor a meus gestos.

Quase não pisco. Às vezes, a intensidade com que olho, querendo ver, doi-me nas têmporas. Quando estou sozinha nunca sorrio, mas sorrio muito, com prazer e consciência, quando companhia.

Quisera ser mais frágil do que sou. E me orgulho de minha força. Meu rosto é antigo. Ninguém mais moderno. Jovem, tenho toda a minha velhice. A resistência me assusta. A liberdade me pesa. Não quero ser livre.

Gostaria de ser como os outros me veem. Ou que os outros me vissem como sou. Haveria, assim, uma única pessoa.”

*Crônica 1 do livro Eu Sozinha,   lançado pela Record em 1968. Este é o primeiro livro da autora.

Do site “Marina manda lembranças”, do também apaixonado Rafael Mussolini.

www.marinacolasanti.com

Amigos, um ótimo final de semana e até sexta!

Dia 27 Passarinho encontrará o TESOURO DE JOÃOZINHO (Editora do Brasil), de Ivan Engler de Almeida. Um de meus livros do primário...

Agradecimentos:

A todos que me emocionaram com compartilhamentos no facebook e com comentários belíssimos sobre o texto “A mão do meu pai que, naquele dia, amei sobre todas as coisas.”, principalmente estes dadivosos, que tiveram a gentileza de postar no PASSARINHO as suas impressões:

Vera Ravagnani, Heloisa Leandro, Vinícius Linné e Karin Krogh.

Renato Coelho

Apaixonado pela Literatura Infantojuvenil.

8 comentários:

  1. São raras as pessoas que escancaram sentimentos, sejam eles de amor, amizade, admiração, _embora os elogios soem constrangedores para alguns.
    Mas é imprescindível que palavras doces sejam sempre ditas, para que o sentimento mais puro saia de dentro da alma, antes que seja tarde.

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  2. Parabéns pelo texto Renato. Emocionante. Achei lindo também ver meu nome aí. É muito bom encontrar pessoas que como eu foram fisgadas pelas palavras da Marina. O mais lindo da obra da Marina é isso, você se apaixona por palavras. Um forte abraço e vamos seguindo Marinando!

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  3. Que belo texto, Renato. Marina Colasanti é uma dessas pessoas que sentimos vontade de appear o tempo todo, Lembro-me dela em Ouro Preto, anos atrás...bom papo,e sagacidade.
    Feliz por vê-los assim, tão próximos.

    Abraço.

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  4. Eu gosto do Renato porque ele não faz resenha ou resumo, como muitos. Ele fala como leitor que se deixa seduzir pelo texto. Esse é seu diferencial. Quanto à Marina, eu fui fisgado por UM ESPINHO DE MARFIM, e lá pela mais adequada metáfora da condição feminina, o conto "A Tecelã".

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  5. Henriette Effenberger23 de setembro de 2013 20:11

    Qualquer texto de Marina é inesquecível, sempre uma lição de como se levar a literatura e os leitores a sério.

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  6. Parabéns, Renato, mais uma vez seu texto é sincero, apresenta pureza e muita emoção literária. Fiquei com vontade de ler Caio Riter e conhecer esse universo maravilhoso, chamado Marina Colasanti. Mas, no meu caso, meio isolado, enquanto não puder ir ao Brasil para me abastecer, ficarei daqui observando os seus passos… justos. Abração!

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  7. Que lindo, Renato, fiquei emocionada!
    Amo Marina e tive a oportunidade de fazer um curso sobre literatura infantil com ela lá na Estação, e que ajudou a aflorar muito minha sensibilidade para meus livros infantis. Sempre Marina.
    Parabéns pela linda homenagem
    Beijos
    Ronize Aline

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  8. O passarinho é o voo desejado, sonhado, e agora voado. Foi preciso coragem como teve a princesa do conto para buscar o novo. Renato, querido, como eu desejei esse seu voo. A melhor ajuda seria te deixar seguir seu caminho "sozinho". Mas estive sempre nos bastidores energéticos. A cada incentivo da vida e dos amigos nascia uma nova pena para concretizar o desejo do voo. E como esse voo nasceu belo e forte. Hoje, paira com bons anúncios sobre nós. O passarinho passa para nos ensinar a voar! Voemos!!!! Vivian Zelda

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